Tecnologia analisa exames de ressonância magnética e dados clínicos para calcular o risco de recorrência da doença em cinco e dez anos, ajudando médicos a personalizar o acompanhamento e o planejamento do tratamento.
Uma nova ferramenta de inteligência artificial promete ampliar as possibilidades de avaliação de pacientes com câncer de mama. A agência reguladora de medicamentos e dispositivos médicos dos Estados Unidos, a FDA, concedeu autorização para o uso do TumorSight Risk, um software desenvolvido para estimar a probabilidade de a doença voltar após o tratamento.
Desenvolvida pela empresa de tecnologia médica SimBioSys, sediada em Chicago, a ferramenta utiliza informações de exames de ressonância magnética das mamas, dados clínicos e resultados de análises patológicas para produzir uma estimativa individualizada do risco de recorrência do câncer.
A tecnologia representa um avanço na medicina de precisão, área que busca adaptar as decisões médicas às características específicas de cada paciente.
Como funciona a inteligência artificial?
O TumorSight Risk analisa informações que normalmente já fazem parte da investigação e do acompanhamento do câncer de mama. Entre os dados considerados estão características do tumor, estágio da doença, comprometimento dos linfonodos, grau tumoral, idade e informações obtidas por exames de imagem.
Com base nesses elementos, o sistema gera uma pontuação de zero a 100 e classifica o risco de recorrência em três categorias: baixo, intermediário ou alto.
A estimativa contempla dois períodos: cinco e dez anos. Dessa forma, os resultados podem oferecer aos profissionais de saúde informações adicionais para avaliar o prognóstico e discutir as possibilidades de tratamento com as pacientes.
Outro diferencial é que a ferramenta utiliza dados já coletados durante o atendimento médico, sem exigir procedimentos adicionais ou o envio de amostras de tecido para essa finalidade.
Estudo aponta diferenças importantes entre os níveis de risco
A avaliação da tecnologia foi apoiada por um estudo multicêntrico com 2.129 pacientes, utilizando dados de instituições médicas dos Estados Unidos, incluindo Mayo Clinic, Emory University, Stanford Medicine e Mercy Medical Center, em Cedar Rapids.
Os resultados indicaram uma diferença significativa entre os grupos classificados pelo sistema. As pacientes categorizadas como de alto risco apresentaram uma probabilidade de recorrência 3,3 vezes maior do que aquelas classificadas como de baixo risco.
A pesquisa também identificou uma associação entre o aumento da pontuação e o risco relativo de retorno da doença: cada acréscimo de dez pontos esteve associado a um aumento de 22% nesse risco.
Nas estimativas apresentadas pelos pesquisadores, pacientes com pontuações entre zero e dez tiveram risco estimado de recorrência de 2,2% em cinco anos e 6,2% em dez anos. Já no grupo com pontuações entre 58 e 100, as estimativas foram de 13,6% em cinco anos e 34,2% em dez anos.
Esses números correspondem a grupos específicos do estudo e não devem ser interpretados como previsões individuais aplicáveis a todas as pessoas diagnosticadas com câncer de mama.
Tecnologia é voltada a um grupo específico de pacientes
A ferramenta foi desenvolvida para auxiliar na avaliação de mulheres adultas com câncer de mama em estágio inicial ou localmente avançado, dos estágios I ao IIIA, com receptores hormonais positivos e HER2 negativo.
Esse subtipo representa uma parcela expressiva dos casos de câncer de mama. A tecnologia, entretanto, não foi autorizada para substituir todos os métodos de avaliação prognóstica nem deve ser considerada uma solução universal para todos os tipos da doença.
A proposta é complementar as informações que os oncologistas já utilizam na prática clínica, oferecendo uma perspectiva adicional sobre a possibilidade de recorrência.
Inteligência artificial não substitui o oncologista
Apesar dos resultados promissores, a ferramenta não determina com certeza se o câncer voltará. Ela calcula estimativas de risco com base em padrões identificados nos dados disponíveis, e seus resultados precisam ser interpretados em conjunto com outros fatores clínicos.
A decisão sobre cirurgia, medicamentos, quimioterapia, radioterapia e acompanhamento continua dependendo de uma avaliação médica individualizada, que também considera as condições de saúde, as características da doença e as preferências da paciente.
A expectativa é que o uso de tecnologias desse tipo contribua para tornar as discussões sobre prognóstico mais precisas e ajude médicos e pacientes a compreender melhor os possíveis cenários após o diagnóstico.
Com a autorização nos Estados Unidos, o TumorSight Risk representa mais um passo na integração da inteligência artificial à oncologia. O avanço reforça o potencial das ferramentas digitais para transformar informações obtidas em exames convencionais em dados que apoiem decisões médicas mais individualizadas, sem substituir a experiência e o julgamento dos profissionais de saúde.

