Pesquisa acompanhou participantes por quase 19 anos e identificou diferenças importantes entre os tipos de alimentos, reforçando a importância da qualidade nutricional da dieta.
Um estudo de grande escala, envolvendo mais de 460 mil pessoas nos Estados Unidos, trouxe novas perspectivas sobre a relação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e o desenvolvimento do câncer colorretal. Os resultados indicaram que, considerando o conjunto desses produtos, não foi observada uma associação com o aumento da incidência da doença.
A pesquisa, que analisou dados de 461.682 adultos, revelou, porém, que os efeitos associados à alimentação variam conforme o tipo de produto consumido. Enquanto alimentos ultraprocessados à base de cereais integrais e laticínios foram associados a uma menor incidência de câncer colorretal, o consumo de carnes processadas apresentou relação com índices mais elevados da doença.
Pesquisa acompanhou participantes por quase duas décadas
O levantamento analisou informações de pessoas que tinham entre 50 e 71 anos quando ingressaram no estudo, em 1995 e 1996. Os participantes responderam a questionários sobre seus hábitos alimentares, permitindo aos pesquisadores estimar o consumo de alimentos ultraprocessados.
O acompanhamento se estendeu até 2018, com período mediano de observação de 18,8 anos. Ao longo desse intervalo, os cientistas investigaram a relação entre os padrões alimentares e a incidência de câncer colorretal.
Os resultados não identificaram uma associação geral entre o consumo total de ultraprocessados e o aumento dos casos da doença. Entretanto, quando os alimentos foram avaliados separadamente, surgiram diferenças relevantes entre as categorias.
Tipos de alimentos apresentaram resultados distintos
Entre os principais achados, os pesquisadores observaram que o maior consumo de cereais integrais, fibras, laticínios e cálcio provenientes de alimentos ultraprocessados estava associado a uma menor incidência de câncer colorretal.
Em contrapartida, o consumo mais elevado de carnes ultraprocessadas foi associado a uma maior incidência da doença.
O estudo também avaliou a substituição de alimentos ultraprocessados por opções minimamente processadas. A análise indicou que substituir 10% do consumo desses produtos, considerando o peso dos alimentos, estava associado a uma redução de aproximadamente 2% na incidência de câncer colorretal.
Os pesquisadores ressaltam que esses resultados representam associações estatísticas e não comprovam que a substituição alimentar, isoladamente, seja responsável pela redução observada.
Resultados não significam que todos os ultraprocessados sejam seguros
Embora os dados questionem a ideia de que todos os alimentos ultraprocessados apresentam os mesmos efeitos sobre o risco de câncer colorretal, os pesquisadores destacam que os resultados devem ser interpretados com cautela.
O estudo foi observacional, o que significa que não é possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito. Além disso, a alimentação dos participantes foi avaliada apenas no início da pesquisa, sem considerar integralmente as possíveis mudanças nos hábitos alimentares ao longo dos anos.
Outro fator importante é o perfil da população analisada, formada predominantemente por adultos mais velhos e brancos dos Estados Unidos. Por isso, os resultados podem não representar igualmente outros grupos populacionais.
Qualidade da alimentação continua sendo fundamental
Os achados reforçam a importância de avaliar a composição nutricional dos alimentos, em vez de considerar apenas o grau de processamento como indicador de seus possíveis efeitos sobre a saúde.
O consumo de cereais integrais e alimentos ricos em fibras, assim como a ingestão adequada de cálcio e laticínios, está alinhado a recomendações alimentares voltadas à prevenção do câncer colorretal. Já a limitação do consumo de carnes processadas continua sendo uma medida importante dentro de uma alimentação equilibrada.
A principal conclusão é que alimentos classificados na mesma categoria de processamento podem apresentar perfis nutricionais e associações com a saúde bastante diferentes.
Assim, os resultados não eliminam as preocupações relacionadas aos ultraprocessados. Eles indicam que compreender quais alimentos são consumidos, sua composição e o padrão alimentar como um todo pode ser mais informativo para avaliar possíveis riscos à saúde.
Atenção: o estudo não comprova que alimentos ultraprocessados sejam inofensivos nem substitui orientações médicas ou nutricionais. A prevenção do câncer colorretal envolve diversos fatores, incluindo alimentação, atividade física, histórico familiar e realização dos exames de rastreamento recomendados.

