Uma névoa roxa toma o ar, luzes tremeluzem em meio a lápides e o som de trovões parece ecoar do além. Assim é a recepção ao atravessar o portal de entrada do Dark Universe, a nova área temática do parque Epic Universe, da Universal Orlando Resort. Com ambientação inspirada nos filmes de terror da Era de Ouro de Hollywood, a nova atração não apenas presta homenagem às lendárias criaturas da Universal, como também cria um universo sombrio e inovador para uma nova geração de fãs.
Ao adentrar a vila fictícia de Darkmoor, visitantes são transportados para um mundo onde o terror clássico é reimaginado com a mais alta tecnologia e imersão cenográfica. É como se Mary Shelley tivesse escrito um novo capítulo para sua Noiva de Frankenstein, onde, como ela diz, “o próprio ar estivesse cheio de monstros”.
Das telas de cinema aos trilhos do parque: um legado de mais de um século

O fascínio da Universal pelos horrores e maravilhas do desconhecido não começou com Frankenstein ou Drácula. Desde 1913, com a versão silenciosa de Dr. Jekyll and Mr. Hyde, o estúdio já flertava com o gênero. Mas foi com O Fantasma da Ópera, de 1925, estrelado por Lon Chaney, que a Universal firmou sua identidade como a casa dos monstros. Chaney, apelidado de “O Homem das Mil Faces”, criou um dos visuais mais icônicos da história do cinema com sua maquiagem assustadora e inovadora, que até hoje influencia o design dos personagens nas novas atrações.
“É incrível ver esses personagens ganhando vida de novo, com tanto investimento e cuidado”, comenta Zachary Beckler, professor de cinema da Universidade da Flórida Central. “Esses filmes não apenas salvaram o estúdio financeiramente — eles moldaram o imaginário do terror moderno.”
Com a morte de Chaney em 1930, coube ao húngaro Bela Lugosi assumir o papel de Drácula no filme de 1931. Poucos meses depois, Boris Karloff entraria para a história como o Monstro de Frankenstein, consolidando o início de uma sequência lendária: A Múmia (1932), O Homem Invisível (1933), A Noiva de Frankenstein (1935), O Lobisomem (1941) e muitos outros.
Monstros que resistem ao tempo

O maquiador Jack Pierce foi o cérebro criativo por trás da aparência que conhecemos até hoje dessas criaturas. Foi ele quem deu ao monstro de Karloff o topo achatado, os eletrodos no pescoço e a testa proeminente — um visual que se tornou sinônimo do personagem em qualquer mídia. E é exatamente esse estilo visual que o Dark Universe procura preservar, ainda que com toques modernos.
A atração principal, Monsters Unchained: The Frankenstein Experiment, é centrada na neta do Dr. Frankenstein, que tenta ressuscitar Drácula e outros monstros lendários com a promessa de reabilitá-los. Mas, como é de se esperar, as coisas não saem como o planejado. Com animatrônicos gigantescos e efeitos práticos que misturam terror e surpresa, a experiência é descrita por muitos como uma das mais impressionantes já criadas pela Universal.
“É um espetáculo. Você realmente sente que está dentro de um filme de terror dos anos 30, mas com toda a intensidade e realismo do século 21”, afirma Bryan Murphy, dono da loja temática Atomic Horror, localizada em Orlando.
As tentativas e tropeços de um universo compartilhado
Apesar da influência cultural duradoura, a Universal nem sempre acertou ao tentar reintroduzir seus monstros para o público moderno. A tentativa mais ambiciosa — o “Dark Universe” cinematográfico, lançado com pompa em 2017 com A Múmia estrelada por Tom Cruise — fracassou ao tentar construir uma franquia em cima de um único filme que, embora cheio de ação, carecia do charme e da essência do horror original.
“Eles estavam mais preocupados em construir uma franquia como a Marvel do que em contar uma boa história”, explica Beckler. “Tivemos nomes como Javier Bardem, Johnny Depp, Russell Crowe anunciados, mas nada de fato aconteceu.”
Paradoxalmente, os monstros voltaram a ganhar fôlego com abordagens mais simples e focadas. O novo O Homem Invisível (2020), por exemplo, optou por uma narrativa moderna, psicológica e aterradora, sendo bem recebido tanto pelo público quanto pela crítica. Já O Lobisomem ganhou uma nova versão em 2025, mostrando que esses personagens ainda têm muito a oferecer quando tratados com o respeito e a visão certos.
Dark Universe: o terror reinventado
A versão física do Dark Universe é uma resposta direta a essa história cheia de altos e baixos. Em vez de tentar empurrar um universo compartilhado para os cinemas, a Universal decidiu fazer o que sabe melhor: criar experiências imersivas e cinematográficas em seus parques.
Com cenários que incluem o Castelo de Frankenstein, o pântano da Criatura da Lagoa Negra e ruas góticas que parecem saídas de A Múmia ou Drácula, cada detalhe foi cuidadosamente planejado para evocar o charme clássico e a adrenalina moderna. Há também uma loja temática dedicada aos monstros e um restaurante inspirado em laboratórios vitorianos, com pratos que parecem poções alquímicas.
“É um paraíso para fãs do horror. E também é uma porta de entrada para quem nunca viu os filmes originais, mas vai sair de lá querendo conhecer tudo”, diz Murphy.
O futuro dos monstros: vivos, gritando e atualizados

Além da expansão nos parques, os monstros continuam vivos também fora deles. Em breve, dois filmes baseados em Frankenstein serão lançados: uma versão de Guillermo del Toro pela Netflix e A Noiva!, dirigida por Maggie Gyllenhaal. Ambos prometem trazer novos olhares sobre a criatura e seu legado trágico.
No fim das contas, o Dark Universe é mais do que uma atração. É uma homenagem a um legado cinematográfico, uma celebração da criatividade atemporal e uma prova de que os monstros, de fato, nunca morrem — apenas aguardam nas sombras para serem redescobertos.

