Poucos dias após deixar o comando do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), o bilionário Elon Musk rompeu o silêncio com duras críticas ao principal projeto legislativo da nova administração Trump. Em uma série de postagens publicadas nesta terça-feira (3) na rede social X, o CEO da Tesla e SpaceX — que foi um dos maiores financiadores da campanha republicana — chamou o pacote de impostos e gastos de Donald Trump de “uma abominação nojenta”.
“Sinto muito, mas não aguento mais. Esse enorme e escandaloso projeto de lei do Congresso, cheio de gastos excessivos, é uma abominação nojenta”, escreveu Musk, em tom de desabafo. Segundo ele, a proposta aumentaria o déficit público americano em pelo menos $2,5 trilhões — um alerta que rapidamente ganhou repercussão em Washington e no mercado financeiro.
Da parceria à ruptura
Musk foi um dos pilares de apoio empresarial para o retorno de Trump à presidência em 2024. Ao todo, o empresário doou aproximadamente $250 milhões à campanha republicana, além de ceder apoio estratégico à pauta de desregulamentação tecnológica e modernização governamental. Sua nomeação para o DOGE, um órgão recém-criado com a promessa de enxugar a máquina pública, foi vista como um sinal de influência direta nas decisões do novo mandato.
Contudo, a lua de mel parece ter acabado. Desde abril, Musk vinha demonstrando incômodo com a escalada de gastos do governo e com o aumento de tarifas sobre importações de países como China, México e Coreia do Sul — medidas que afetaram a cadeia global de suprimentos, incluindo setores de tecnologia e veículos elétricos.
O estopim veio com o envio ao Congresso do Plano de Redução Fiscal e Reforço Militar, proposta que prevê cortes massivos de impostos sobre grandes empresas e altos salários, além de um aumento expressivo nos investimentos em defesa, infraestrutura energética e segurança de fronteiras — tudo sem apresentar fontes concretas de compensação financeira.
Alerta do Congresso e da OCDE
Segundo o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), órgão técnico e apartidário, a proposta elevaria a dívida pública dos Estados Unidos em $3,8 trilhões ao longo da próxima década. A dívida total do governo federal já alcança impressionantes $36,2 trilhões, e analistas temem que a combinação de cortes fiscais e aumento de gastos leve a uma crise de confiança no mercado internacional.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por sua vez, revisou para baixo a projeção de crescimento dos EUA em 2025, reduzindo-a de 2,2% para 1,6%, citando a proposta fiscal como um dos principais fatores de risco.
Casa Branca minimiza críticas
A resposta da Casa Branca foi direta, mas sem confrontos abertos. Em coletiva de imprensa, a secretária Karoline Leavitt afirmou que o presidente “já conhece bem” a opinião de Musk, e que “continua comprometido com seu plano de fazer a economia americana crescer com base na liberdade de mercado e na segurança nacional”.
Fontes próximas ao governo indicam, no entanto, que o desgaste com Musk já vinha crescendo nos bastidores. Integrantes da ala mais ideológica do partido vêm questionando a influência do empresário no primeiro ano do novo governo Trump e consideraram sua saída do DOGE como “inevitável”.
Impacto político e possível realinhamento
A ruptura entre Musk e Trump tem implicações que vão além do embate fiscal. O bilionário, com mais de 200 milhões de seguidores nas redes, tem enorme poder de mobilização e influência entre eleitores libertários, tecnocratas e independentes — justamente os grupos que deram sustentação à vitória apertada de Trump em estados-chave.
Há especulações de que Musk possa redirecionar seu apoio a candidaturas alternativas no Congresso ou até mesmo considerar um movimento político próprio, como chegou a sugerir em 2022.
Enquanto isso, o projeto do presidente segue para o Senado, onde será votado no próximo mês. Apesar da maioria republicana, aliados já admitem que o texto deve passar por ajustes significativos diante da crescente pressão fiscal e política.
Fim de uma era?
Com essa crise pública, chega ao fim um dos principais símbolos da aliança entre poder político e tecnológico nos Estados Unidos. A união entre Musk e Trump, que parecia sólida e estratégica, agora se fragmenta em meio a uma batalha por responsabilidade fiscal e rumo econômico.
Para o mercado, para o Congresso e para o eleitor americano, o rompimento lança um sinal claro: nem mesmo os maiores aliados do presidente estão dispostos a fechar os olhos diante de um projeto que ameaça a sustentabilidade das contas públicas — e, potencialmente, o próprio crescimento do país.

